sábado, 3 de março de 2012

OS DISTÚRBIOS COMPORTAMENTAIS DO ALUNO NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR

Hugo Norberto Krug

Considerações iniciais a respeito dos distúrbios comportamentais do aluno na Educação Física Escolar
        Segundo Gardner (apud Valle, 1997), em uma compreensão global do indivíduo, devemos nos preocupar com os contextos reais, na escola, na família e em outros ambientes sócio-grupais.
        Peres (1999) diz que atualmente estamos presenciando muitos acontecimentos que estão gerando mudanças radicais na estruturação sócio-econômica da população, e, com isto, automaticamente, desencadeando vários problemas a nível familiar, muitas vezes, influenciando nas atitudes dos filhos na escola, onde as crianças apresentam distúrbios comportamentais influenciados por esses fatores.
        Destaca ainda que a escola é ponto de encontro de crianças provenientes de todos os níveis sociais, e estas, encontrando-se em determinadas fases de desenvolvimento e crescimento, muitas vezes, demonstram agressividade, "luta pelo poder".
        Vários autores chamam atenção para os riscos e problemas futuros que estes distúrbios poderão causar e alertam para tomadas de providências no sentido de acabarmos com possíveis problemas.
        Assim, o objetivo deste ensaio foi possibilitar uma reflexão sobre os distúrbios comportamentais pelo escolar nas dependências da escola, verificando as suas possíveis causas.

A afetividade como base para os distúrbios comportamentais do aluno na escola
        Para Peres (1999) um dos fatos principais que acarreta distúrbios comportamentais dos alunos na escola é a afetividade, que segundo Freire (1985, p.37), "é o território dos sentimentos, das paixões, das emoções, onde transita o medo, o sofrimento, o interesse, a alegria e o afeto".
        De acordo com Piaget (1988, p.41):

o sentimento que a criança tiver experimentado no passado, na família e com os professores, orientará os sentimentos futuros. É esse sentimento primitivo que irá moldar as emoções e comportamentos mais profundos. Portanto, a afetividade na fase escolar e na adolescência do educando se apóia na direta relação afetiva dos pais e professores.

        Segundo Maslow (apud Mosquera, 1974, p.35):

a afetividade e o amor ocupam a terceira escala na teoria de hierarquia das necessidades e sem satisfação da mesma o homem não teria o seu desenvolvimento integral como ser humano.

        Por isso, no entender de Luck e Carneiro (1985), a escola, além das várias disciplinas obrigatórias, tem a obrigação de desenvolver valores, atitudes e interesses, mesmo aqueles que são difíceis de serem postos em prática, como igualdade social para todas as pessoas, amor, amizade, honestidade, preservação do meio ambiente e, muitos outros possíveis.
        Notamos, com isso, que a afetividade, é, sem dúvida, um aspecto importante no desenvolvimento integral do ser humano. Mas, apesar da importância da afetividade no processo de interação dos seres humanos, esse aspecto é negligenciado pela literatura, da área da Educação Física, inclusive aquela que trata do processo ensino-aprendizagem. Percebe-se que, no campo da Educação Física, o enfoque das aulas baseia-se, fundamentalmente, no desenvolvimento motor e técnicas desportivas. Por outro lado, propõe-se o desenvolvimento integral do aluno e para isso é preciso também enfatizar o aspecto afetivo. Nesse enfoque existe uma relação entre professor e aluno que é chamada de afetividade, o qual não é abordado, discutido, desenvolvido ou vivenciado nesta relação pedagógica (Peres, 1999).
        Para que o educando tenha um desenvolvimento integral, a escola deve comprometer-se com atividades que promovam ações do mundo interior, a partir dos quais o educando possa desenvolver atitudes, valores e ideais. Mesmo assim, encontramos nas escolas, hoje em dia, muitas crianças revoltadas,agressivas, demonstrando um grande problema de relacionamento grupal, descarregando em colegas e professores o "ódio e raiva", demonstrando conflitos no processo educacional, expressando muitas vezes seus sentimentos através de reflexos de nível social, familiar e cultural (Peres, 1999).
        De acordo com Luck e Carneiro (1985) qualquer fato negativo que ocorre com o indivíduo acaba acarretando um distúrbio de comportamento, através de uma expressão do sentimento momentâneo ou dos danos deixados pelo alto grau de impacto desta ocorrência, levados sempre por causa secundária mas de grande importância, que está inserida no seu comportamento.
        Segundo Peres (1999) a afetividade, ou a falta desta, é uma das causas dos maiores distúrbios, pois ela é responsável pelas emoções, o sofrimento, o medo, o sentimento, etc.
        Bonow (apud Mosquera, 1974) diz que afetividade é o conjunto de fenômenos psíquicos que se manifestam sob forma de emoções, sentimentos e paixões acompanhados sempre da tonalidade dor e prazer, satisfação ou insatisfação, agrado ou desagrado, alegria ou tristeza.
        Para Lannoy (apud Mosquera, 1974) os estados emocionais e sentimentais formam a afetividade, um dos aspectos do comportamento humano.
        É graças à afetividade que nos ligamos aos outros, ao mundo, anos mesmos. É, na verdade, a afetividade que dá aos nossos atos e aos nossos pensamentos o encanto, a razão de ser, o impulso vital. É o fundamento da personalidade, o que temos de mais íntimo. Não é, porém, um mundo fechado, visto que é a mesma afetividade que nos liga aos outros. Assim, a afetividade está relacionada ao amor, ao carinho, ao respeito e à aceitação do ser humano consigo mesmo e com os outros (Peres, 1999).
        Segundo Piaget (1988) até os dois anos, aproximadamente, as emoções e os sentimentos gerados pelo contato da criança com a mãe são centrados no próprio corpo da criança, constituindo esquemas afetivos globais.
        À medida em que o corpo infantil se separa dos familiares, ocorrem entre eles trocas que, embora não sejam genuinamente sociais, fazem com que a vida afetiva se descentre e busque no meio escolar a continuidade desta união familiar, e o professor é o elo da seqüência e acolhida afetiva (Peres, 1999).
        De acordo com Piaget (1988) cada um dos personagens do meio ambiente da criança ocasiona, em suas relações com ela, esquemas afetivos, isto é, resumos ou moldes dos diversos sentimentos sucessivos que esse personagem provoca. O conjunto dos esquemas afetivos constituirá o caráter da pessoa.
        O mesmo acontece quando a criança inicia a sua vida escolar. É necessária uma boa acolhida, um afeto sincero e muita amizade. A necessidade de afeto é o fator mais importante da natureza humana. Ninguém pode viver sem amor. O afeto está para a vida psicológica como a necessidade do alimento está para a vida física. Segundo Maslow (apud Mosquera, 1974) sem satisfação das necessidades de pertinência e de amor (afetividade), que ocupam a terceira escala na sua teoria da hierarquia de necessidades como ser humano, o homem não se desenvolveria integralmente.
        O afeto será semente de uma vida escolar saudável. Daí a necessidade de compreender esse processo de desenvolvimento de afeto (domínio afetivo) para que o adulto possa contribuir para um desenvolvimento sadio da criança (Peres, 1999).
        Segundo Luck e Carneiro (1985) os termos mais comuns utilizados para definir, expressar e ter relação no domínio afetivo são: emoções, sentimentos, atitudes, ajustamento, apreciações, interesses e valores.
        Emoção é o estado de alteração e a variação de situações, prazer e desparazer (Luck; Carneiro, 1985).
        As emoções apreendidas dependem da cultura. Uma mesma situação pode provocar reações diferentes em pessoas de culturas diferentes. Também as expressões externas variam de uma cultura, principalmente os movimentos do corpo, das mãos, do rosto em seu sorriso ou seriedade. A emoção é também uma repercussão afetiva interna, é um elo entre pessoas, um modo através do qual a interação social acontece (Peres, 1999).
        Conforme Santin (1995, p.29) "talvez tenhamos que reconhecer que o homem se distingue de todos os outros seres vivos pelo sentimento, pela emoção, pela paixão".
        Os sentimentos são inerentes ao homem, surgiram com o desenvolvimento histórico e variam com as mudanças das necessidades sociais. Portanto, o desenvolvimento afetivo na base escolar e na adolescência do educando se apóia na direta relação dos pais e professores (Peres, 1999).
        Segundo Fernandes (1990) a escola não pode se omitir da responsabilidade na ampliação, consciente e intencional, das atitudes positivas, necessárias para o desenvolvimento integral do educando nos sentido amplo e pessoal. Neste aspecto, os valores que os educandos vão adquirindo são oriundos das ações ou intervenções positivas ou negativas percebidas, e sentidas pelos jovens, por parte dos seus professores.
        De acordo com Pierón (apud Luck; Carneiro, 1985) o componente afetivo é dividido em duas categorias: intervenções positivas e intervenções negativas.
        As intervenções positivas são as manifestações verbais, ou não, que são manifestadas através do elogio, do afeto, do carinho, da confiança, etc.
        Os reforços ou intervenções positivas exercem um efeito favorável e duradouro. A acentuação de uma manifestação, uma interferência tem uma resposta de fixação. Assim, um conhecimento, ou um comportamento não desejado leva à fixação pelo aluno. Portanto, o professor deve trabalhar com comportamentos desejados.
        Muitas vezes, o professor trata os alunos com desigualdade. E os alunos percebem isso, pois tem expressado que não gostam de serem comparados com outros ou serem classificados por causa de sua falta de habilidade. Todo aluno merece ter atenção, principalmente no que diz respeito às dificuldades práticas, e uma intervenção afetiva positiva é extremamente significante.
        A desigualdade de tratamento dos alunos pelo professor ocorre sob as mais diversas justificativas. Porém, nem é pedagogicamente correto haver exagerada atenção para alguns alunos em detrimento de outros. Todos deverão ter e merecer a atenção do professor, especialmente quando as interferências são aquelas necessárias, as afetivas positivas.
        As intervenções afetivas negativas são manifestações, verbais ou não, para criticar, ironizar, menosprezar, ameaçar, agredir, punir. Outra intervenção negativa, é aquela segundo a qual o aluno possui conotação de bom ou mal, moral ou imoral, bonito ou feio, representando a imagem de uma avaliação global da pessoa através de seu mestre.
        As interferências negativas modificam, às vezes, um comportamento mais rapidamente que qualquer outra técnica de modificação de comportamento, contudo, sua eficácia se limita a um curto tempo. Se ocorrem repentinamente, tendem a criar um clima nada favorável na relação entre professor e alunos. É, portanto, uma mera atividade.
        Evidentemente, nem todas as reações de afetividade tem por objetivo a fixação da aprendizagem. A maioria das intervenções afetivas negativas se referem a comportamentos, atitudes, valores, sentimentos que o professor considera inadequados. Por isso essas intervenções devem ser pensadas antes de aplicadas.

Causas dos distúrbios comportamentais do aluno
        Lima et al. (1985) apresenta algumas situações que, muitas vezes, acabam causando distúrbios de comportamento:
1) Causas devidas à criança.
1.1) Condições físicas desfavoráveis - Prematuridade; Defeitos de visão; Defeitos de audição; Problemas neurológicos; Doenças crônicas; desnutrição.
1.2) Condições psíquicas desfavoráveis - Problemas de personalidade; Falta de motivação; Negativismo; Ansiedade; Fobias; Conduta anti-social na escola; Timidez; Hiperatividade; Gazetas.
2) Causas devidas à família.
2.1) Condições familiares desfavoráveis - Más condições econômicas familiares; Más condições culturais familiares; Desorganização sócio-familiar por pais ausentes, pais separados, pais em desarmonia, pais doentes, trabalho da mãe fora de casa, trabalho da criança.
3) Causas devidas à escola.
3.1) Condições pedagógicas desfavoráveis - Professor tecnicamente não preparado; Professor emocionalmente desajustado; Mudanças de professores; Programa de ensino não satisfatório.
3.2) Condições físicas desfavoráveis - Inadequação de prédio, sala de aula (tamanho, iluminação, ventilação), mobiliário, instalação sanitária; Problemas relativos ao recreio, merenda, condução.

Considerações finais a respeito dos distúrbios comportamentais do aluno na Educação Física Escolar
        Segundo Peres (1999) detectando as "crises e conflitos", demonstrados pelas diversas mudanças que interferem no dia-a-dia, a escola deve realizar um acompanhamento no sentido de conscientizar os alunos problemáticos, quanto as mudanças necessárias para a obtenção do sucesso, através de um trabalho com a família e comunidade em que a criança está envolvida. Além de realizar um trabalho que proporcione um contínuo relacionamento professor-aluno, baseado na qualidade de atitudes, de afeto, proporcionando ações mútuas que contribuam para o desenvolvimento e aprimoramento do processo ensino-aprendizagem, através de diálogos, de experiências que oportunizem o desenvolvimento da criatividade do aluno, criando ações de respeito mútuo, interesse, valorização recíproca, postura e aceitação de críticas.
        Hurst (apud Luck; Carneiro, 1985) destaca que os professores devem ser capazes de efetuar mais ações que venham a beneficiar os alunos positivamente do que as negativamente. Portanto, os professores devem sempre incentivar, motivar, estimular para que o aluno perceba que as ações são exclusivamente para o seu crescimento como pessoa humana.

Referências
Fernandez, E. O aluno e o professor na escola moderna. Aveiro (Portugal): Estante, 1990.

Freire, J.B. Educação de corpo inteiro: teoria e prática da Educação Física. Rio de Janeiro: Scipione, 1985.

Lima, G. et al. A criança na escola. In: Marcondes, E. Pediatria básica. 7. ed. São Paulo: Sarvier, 1985.

Luck, H.; Carneiro, D.G. Desenvolvimento afetivo na escola: promoção, medida e avaliação. 2. ed. Petrópolis: Vozes, 1985.

Mosquera, J.J.M. Adolescência e provação. Porto Alegre: Sulina, 1974.

Peres, L.S. Distúrbios comportamentais do escolar: uma pequena abordagem de suas causas. Cadernos de Educação Física e reflexões, São Miguel do Oeste: Curso de Educação Física da UNIOESTE, v.I, n.1, p.91-101, nov., 1999.

Piaget, J. Para onde vai a Educação. Rio de Janeiro: Summus, 1988.

Santin, S. Educação Física, ética, estética e saúde. Porto Alegre: ESEF/UFRGS, 1995.

Valle, E. Educação emocional. São Paulo: Olho D'água, 1997.

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